Aplicativo de IA que ‘Revive’ Falecidos Gera Debate Ético e Emocional

Um novo aplicativo chamado 2Wai, que utiliza inteligência artificial para criar avatares de pessoas falecidas e permitir interações virtuais, tem provocado discussões acaloradas sobre a tecnologia do luto. O app, disponível inicialmente nos Estados Unidos para iOS, possibilita a recriação virtual de indivíduos a partir de vídeos gravados, gerando ‘HoloAvatars’ que podem interagir em tempo real.

Um vídeo demonstrativo da tecnologia viralizou, mostrando uma mulher grávida conversando com um avatar de sua mãe falecida. A demonstração, postada pelo cofundador da 2Wai, Calum Worthy, acumulou milhões de visualizações, mas também gerou uma onda de críticas, com usuários expressando preocupações sobre o impacto na realidade e no processo de luto.

O 2Wai não se limita a pessoas falecidas, permitindo a criação de avatares de personagens diversos. Para falecidos, requer vídeos pré-morte da pessoa falando e se movimentando. A IA, então, amplia o repertório do ‘gêmeo digital’, permitindo que ele fale como a pessoa real, reconheça o usuário e lembre informações passadas. O aplicativo suporta mais de 40 idiomas, mas a disponibilidade do português do Brasil não foi confirmada.

Especialistas alertam para os riscos de dependência e ‘ilusão de realidade’ associados ao uso de IAs no processo de luto. A psicóloga Mariana Malvezzi da ESPM, adverte que a tecnologia pode gerar confusão entre o real e o simulado, criando dependência afetiva e amplificando a angústia. A técnica de replicar digitalmente pessoas falecidas com IA é conhecida como ‘grief tech’.

Pesquisas indicam que uma parcela significativa da população considera a possibilidade de usar IA para interagir com familiares falecidos, o que demonstra a crescente aceitação e o potencial impacto dessa tecnologia na sociedade. Casos anteriores, como o uso de uma versão de IA de uma vítima de homicídio em um julgamento e a ‘entrevista’ de um jornalista com um avatar de um jovem falecido, ilustram a expansão do uso da IA para lidar com o luto e a memória.